http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/imprensa_diz/imprensa_diz.asp?nitem=3081431&sid=0150150649922430892081439&k5=216801B1&uid=
Veja / Data: 20/3/2002 O problema Beckett
Ainda é difícil interpretar as obras do irlandês. É nessa dificuldade que está a sua grandeza
Jerônimo Teixeira
Samuel Beckett (1906-1989) é um problema para o resenhista. Como apresentar uma
obra que vem resistindo a todas as tentativas de interpretação – e sobre a qual tantos clichês se acumulam (“TODAS as tentativas de interpretação”?”TANTOS clichês”?O resenhista deve ser onisciente para saber tais... contudo, esqueceu-se de mencioná-los) ? É fácil, por exemplo, qualificar de hermético o autor irlandês e assim reforçar a admiração entre aterrorizada e mística em torno dele. O resenhista conta com outras tantas platitudes consagradas para realizar seu trabalho (Mais uma vez o resenhista conta com a boa vontade do leitor para que adivinhe o que se passa em sua mente): Beckett é, ao lado de Brecht, o dramaturgo mais influente do século XX (E ele tirou isto de onde mesmo?) , e assim por diante (“e assim por diante” o quê? Quem?). Tudo verdade, mas que diz pouco (Tão pouco que chego a concordar em algo com o resenhista).
O resenhista, então, ganha tempo resumindo a peça que está sendo lançada no Brasil, Fim de Partida (tradução de Fábio de Souza Andrade; Cosac & Naify; 174 páginas) (Aha!Até o próprio reconhece que estava tegiversando). Mas a sinopse dessa tragicomédia (ou comitragédia) feita de silêncios mal dá um parágrafo. É um excruciante diálogo (COMO uma “tragicomédia (ou comitragédia) feita de silêncios” pode ser um “excruciante diálogo”?) entre Hamm, misto de ditador fracassado e artista frustrado, e Clov, seu serviçal. Hamm está cego e paralítico. Clov tem uma estranha enfermidade que o impede de sentar – as pantomimas e macaquices de vaudeville ficam a seu cargo. Ocasionalmente aparecem outros dois mutilados, Nagg e Nell, pais de Hamm, que vivem dentro de latas de lixo. Os quatro personagens dividem um abrigo, refugiados de uma terra devastada que Clov espia com uma luneta. (Que descrição pobre os personagens recebem do autor da resenha. Ele esquece a conturbada relação íntima entre Nagg e Nell e a de desprezo entre Hamm e seus pais, e Hamm e Clov.Poderia ter explorado de forma mais densa os conflitos psicológicos e a dependência existente entre as personagens e suas angustiantes visões sobre a vida.Também não menciona os questionamentos suscitados pelas metáforas presentes no texto; as interdependentes “deficiências” das personagens, por exemplo, seriam uma alusão à estagnação do ser humano diante de suas limitações, à acomodação em detrimento de uma mudança efetiva). O texto não esclarece que espécie de apocalipse criou tamanha desolação.
Encenada pela primeira vez em 1957, 'Fim de Partida' é talvez a realização mais acabada de Beckett (As outras obras de Beckett estariam por terminar?). Aqui o resenhista encontra a deixa para falar um pouco do autor e sua obra (Antes melhor que o resenhista se detenha apenas aos fatos da carreira de Beckett do que continuar a “opinar” sobre a obra deste). Reservado, o Nobel de Literatura de 1969 disse a uma biógrafa que sua vida era "enfadonha e sem interesse". Não é verdade. Beckett, como seu amigo, mentor e compatriota James Joyce, cedo escolheu o exílio. Disse preferir Paris em guerra à Irlanda em paz. Falava sério: participou da resistência durante a ocupação nazista na França, o que lhe valeu uma condecoração do general De Gaulle, em 1945. No pós-guerra, depois dos romances Molloy, Malone Morre e O Inominável, surgiram as peças que transformariam Beckett na figura central do palco moderno: Esperando Godot, Fim de Partida, Dias Felizes, A Última Fita de Krapp, títulos que se alinham a Ulisses, de James Joyce, e a Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, como tours de force do modernismo. Comparado aos caudalosos Joyce e Proust, porém, Beckett é econômico (“Econômico” também é o resenhista em suas argumentações.Não deixa claro que tipo de “economia” Beckett fez em suas obras).
Para o fim da vida, foi compondo peças cada vez menores. Sua dificuldade (Que dificuldade? A de Beckett? Certamente ele não teria dificuldade em compreender as suas próprias obras) reside em parte na aparente pobreza de recursos cênicos e verbais. Os personagens falam com clichês e fragmentos de frase, contam pedaços de histórias que não se resolvem nem apontam um sentido, repetem gestos automatizados. Os próprios personagens são fragmentos – em Fim de Partida, todos apresentam algum impedimento físico. Eu Não, obra posterior, coloca em cena apenas uma boca sem corpo. A maioria das peças foi escrita em francês, mas o próprio Beckett providenciou traduções em inglês. Era um artista sem pátria – daí o crítico francês George Steiner chamá-lo de "extraterritorial".
O leitor já adivinha que esta é a parte da resenha em que são citadas as autoridades críticas (Que grande adivinho o leitor é). Vamos ficar com uma só: o filósofo alemão Theodor Adorno, para quem Beckett, com seu aparente desinteresse por política, construiu uma crítica social e filosófica mais arrasadora que as peças ideológicas de Sartre. Não há ideologia em Beckett, e é inútil procurar chaves simbólicas nos diálogos estropiados entre Clov e Hamm (Talvez o resenhista não tenha procurado direito...). Fim de Partida provaria, no limite, a impossibilidade de toda forma de linguagem e comunicação (Mas O QUE o levou a constatar isto? * Desconfio que o resenhista tenha pedido a outrem a ler e contar-lhe a descrita obra ao invés de lê-la *). "Moscas debatendo-se depois que o mata-moscas as esmagou só pela metade", para usar uma citação de Adorno, os aleijões de Beckett representariam uma sentença definitiva contra a sociedade moderna (Fico a imaginar qual “sentença definitiva” seria esta que as personagens representariam na visão do resenhista...). Pensando bem, o autor é um problema para todos nós (Pensando bem, esta resenha é um problema pra todos nós).
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário